terça-feira, 1 de março de 2016

Arte x Ciência?


Há quem diga que a arte é inferior à ciência ou o contrário. Com um raciocínio similar, tenta-se estabelecer primazia entre a área de exatas e área de humanas. Primeiramente, é sim a ciência que avança as eras da humanidade e é sim a área de exatas que fornece subsídios para as construções tangíveis e sólidas de nossa sociedade, contudo, a arte e a área de humanas participam deste processo. Talvez a área de humanas sofra certos preconceitos em virtude de sua subjetividade teórica. Tendo-se em vista que o ser humano é um ser oportunista, é fácil compreender que esta subjetividade muitas vezes pode (assim como já foi inúmeras vezes) ser usada para confundir, manipular e enganar. No ramo das exatas e da ciência, a margem de manobra para este tipo de coisa é menor, não inexistente, mas menor. Afinal, a impossibilidade do uso ou do não uso de certos métodos ou pesquisas nem sempre obedece, como deveria, a uma real limitação lógica, científica ou empírica. Às vezes esta obedece a interesses estranhos à matéria.
Muito embora pessoas tenham sido enganadas e conduzidas à destruição de suas vidas por ditadores mestres nas artes de expressão e oratória, que tinham em suas equipes virtuoses das palavras. Foram outros mestres destas mesmas artes quem os derrubaram. Além disso, em muitos casos, certas possibilidades científicas foram inspiradas pela arte. Júlio Verne, por exemplo, inspirou muitos cientistas em suas pesquisas. A viagem no tempo se tornou um assunto muito estudado após o clássico “A Máquina do Tempo”. A partir da viagem de Verne, as pessoas (e entre elas os cientistas) passaram a se questionar se era realmente possível viajar através do tempo. O que logo nos levou, após muitos experimentos, a possuir material vasto sobre esta linha de pesquisa, comprovando a sua impossibilidade por hora, contudo, se a viagem no tempo fosse uma possibilidade plausível neste momento, a teríamos alcançado, muito em virtude da provocação imaginativa de Verne.
Além da função inspiradora, a arte tem outra função, esta mais árdua e mais grave do que a anterior: ser fiscal da ciência. Se você algum dia ouviu falar sobre o cão de Pavlov (experiência de condicionamento em que o cão recebia comida toda vez que uma sineta era tocada; logo este passou a salivar simplesmente pelo mero toque da sineta sem que visse ou recebesse comida), e se já pensou que esta técnica poderia reabilitar criminosos, deverá perceber o quanto o livro “A Laranja Mecânica” foi relevante neste aspecto. Este livro não evitou a aplicação de uma ideia que estava sendo estudada, mas paralisou o sistema que já estava sendo implantado a partir desta ideia. O condicionamento pavloviano já era aplicado em algumas prisões sem a mera reflexão sobre as suas consequências, pois a ciência é e deve ser assim: da teoria à experimentação e da experimentação à teoria. Cabe à arte mantê-la humana, cabe à arte proteger a pureza de pensamento e a humanidade da sociedade.
Ao longo do tempo, a ciência descobriu diversas imperfeições em nosso cérebro (de ilusões de ótica a suscetibilidades diversas). Assim, a ciência da propaganda era irrecorrível a um ser humano, bem como certos químicos eram inelutáveis em seus corpos. Poder-se-ia enlouquecer um ser humano usando um determinado composto ou através de um conjunto de impulsos conduzi-lo a gostar ou não de algo, sem que para isso a sua vontade fosse considerada. O livro 1984 de Orwell sistematizou uma forma de controle absoluto de uma população através de uma série de estímulos e desestímulos, que, novamente, já estavam sendo aplicados em diversos países do mundo e que se tornavam uma tendência para os outros. Aqueles que olham para o livro de Orwell e pensam que ele errou em sua previsão se enganam. A previsão de Orwell não se concretizou em virtude da existência e da providencial aclamação de seu próprio livro. Tanto o A Laranja Mecânica de Burgess como o 1984 de Orwell colocaram pressão nos oportunistas e aguçaram a vigilância das populações na época. Estas populações se tornaram fiscais de seus líderes e evitaram que tais desumanidades seguissem adiante. Embora, apesar do caráter universal e atemporal de ambas as obras, novos métodos tenham sido criados para mascarar tais tentativas de manipulação, é muito mais fácil a quem leu tais obras perceber a readaptação destas técnicas.
Desta forma, de tempos em tempos, dependemos de obras deste tipo para que a vontade de um não se torne a ruína de todos, já que a ciência criará, cada vez mais, situações em que haja esse risco, porque que esta é função dela: nos dar cada vez mais recursos e conhecimento sobre o universo.
A ciência sempre será atrapalhada, atrasada, maculada e distorcida pelo estado humano de seus pesquisadores e beneficiários, tanto por seus vícios como por suas limitações. É sobre o estado humano que as ciências humanas e a arte agem, preservando as condições para que a ciência avance; evitando que as sombras humanas suscitadas por cada novo ganho de recurso desvirtuem o propósito inicial da pesquisa; administrando a nossa cultura para que a sociedade possa permanecer pacífica, livre e pura, diante de quaisquer ganhos e avanços; e nos adaptando às novas eras que serão impostas pela tecnologia e pelo avanço da ciência. Além disso, a arte nos conduz, através da imaginação, a atingir um estágio de projeção mais refinado, no qual podemos sentir o peso de erros sem cometê-los e assim perceber e corrigir os nossos hábitos, atos e convicções em nome de um futuro mais próspero. Foi, inclusive, o poder crítico da arte que evitou que a ciência fosse destruída e também que ela nos destruísse ou à nossa liberdade de pensamento na sua forma mais pura, pois o ser humano não é um ser científico, ele é um ser natural: emocional e selvagem; cheio de instintos, egoísmo e desejos reprimidos.
Assim, arte e ciência não são apenas complementares, mas dependentes uma da outra, não em um comensalismo, mas em uma simbiose. Deste modo é possível dizer que triste será o dia em que constatarmos que a arte se tornou desnecessária, pois isto significará que a ciência parou.

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