quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Um pouco de literatura (Estilo Clássico)

     Estilo clássico:

    - Narrativas sem revoluções temporais; toda passagem de tempo é bem explicada e segue uma cronologia rígida: "no dia seguinte..."

    - Técnica narrativa conservadora. O narrador sempre aparece como figura central, descreve holisticamente personagens, ambientes, etc.

    - Cada personagem se submete ao seu preâmbulo ou enunciado antes de agir: "fulano pensou", "fulano falou".  

     Apesar de sua aparência simples, o domínio deste estilo é fundamental, pois:

     1- Muitos autores voltam a ela em algum momento em suas obras, ainda que modernistas. Esta é usada como técnica base. 

     2- Obras escritas nessa técnica enriquecem o vernáculo, pois o narrador sempre procurará usar o melhor conjunto de palavras para descrever ou nomear algo ou alguma situação(diferentemente das narrativas em primeira pessoa, fluxo de consciência e congêneres, em que a limitação de vernáculo ou o erro de descrição podem ser vistos como recursos para demonstrar uma característica do personagem narrador).

     3. Ensina a concisão e a coesão na comunicação dentro e fora de um livro: Pois o narrador deve, na esperança de se impor, sempre buscar a forma mais sucinta de contar, descrever ou definir uma ideia ou um fato.

     Estas competências básicas são fundamentais para quem planeja se comunicar melhor, seja na forma escrita ou na comunicação verbal. 

     Livros sugeridos dentro dessa técnica:

     Guerra e Paz, Liev Tolstói: Narrativa densa contendo um vocabulário variado que beira a perfeição descritiva. O livro é um retrato complexo da realidade e muitas vezes nos dá a impressão de ter sido composto por um ser dotado de percepção sobre-humana, como se o autor fosse uma entidade à cima da morte e da vida.
     Deve-se destacar na obra a maestria do autor na verossimilhança descritiva e narrativa, algo importantíssimo no cenário literário, pois, na maioria dos casos, só é possível fazer um leitor se identificar com algo que este aceite ser real. Tolstói convence o leitor em poucas páginas da realidade do que está narrando e em seguida o envolve de tal forma, que a sua própria realidade passa a parecer mal acabada em comparação à da obra. A variedade de personagens e personalidades anula qualquer preferência do autor e impossibilita, na maior parte do livro, o reconhecimento de seus alter-egos. A narrativa neutra mantém sua imparcialidade através da anulação de um ponto de vista bem fundamentado de um personagem por outro oposto igualmente bem fundamentado. Assim se anulam ateus, católicos e ortodoxos, franceses e russos, entre outras muitas oposições presentes na obra.        Tolstói também integra outro gênero literário, o monólogo interior (que será abordado em outro post). Inclusive com o próprio Guerra e Paz.

     Por Quem os Sinos Dobram, Ernest Hemingway: Narrativa clássica que oscila conforme o momento emocional da obra, exemplifica a aceleração narrativa no estilo clássico (atenção para esse fenômeno especialmente nos capítulos finais).

     O Velho e o Mar, Ernest Hemingway: Célebre por sua composição concisa e sua precisão narrativa. Estilo econômico e enxuto que radicaliza a objetividade narrativa, sem, contudo, deixar de contar uma estória intensa com uma mensagem profunda. Outro exemplo de concisão narrativa, este no gênero conto, é Anton Tchekhov. Deste autor indico Angústia e principalmente A Obra de Arte. (Atenção aqui para objetividade descritiva. Lendo um pouco de Tchekhov, logo se compreende que todo o elemento descrito é usado e corrobora para o clímax. Assim, o leitor fica condicionado a observar os elementos dados pelo autor ao invés de procurar outros elementos que não obedeceriam ao objetivo central do conto.

     Um Conto de natal, Charles Dickens: Narrativa leve que se esconde atrás da trama central e passa despercebida. O livro parece procurar ajudar o leitor a terminá-lo; um exemplo de narrativa clássica fluída. Outro exemplo de narrativa clássica fluída, em que o narrador se esconde atrás da trama e da mensagem central, é Orgulho e Preconceito, Jane Austen. Ambos os livros devem ser estudados a fim de se obter elementos para a composição de textos que possuam bom ritmo de leitura. 

     Contos de Andersen: Narrativas curtas em que o narrador clássico mistura elementos fantasiosos com realísticos: árvores conversam em meio a uma sociedade tomada pela desigualdade social, natureza sussurra enquanto tragédias humanas acontecem, o mágico aparece com naturalidade ao lado do real. Apesar do caráter aparentemente infantil da narrativa, muito da sociedade da época (críticas e anseios) está exposto nesse livro. 

     O Hobbit, Tolkien: Narrativa clássica de caráter épico e mitológico. Alternativa às consagradas epopeias. Um narrador cheio de lirismo e escachado na descrição de seus personagens apresenta a trama central. Diferentemente do seco e essencialmente descritivo narrador do mesmo Tolkien em O Senhor do Anéis.

     Vinhas da Ira, John Steinbeck: Narrativa clássica com algumas variações estilísticas, a exemplo do Guerra e Paz de Tolstói, em alguns capítulos, o autor conversa com leitor usando as passagens dos personagens como embasamento para suas teorias ou argumentos. O livro demonstra como sociologia e economia estão intimamente ligadas. Há de se destacar ainda que um de seus capítulos possui uma genial e sucinta explicação sobre fenômeno econômico chamado Dumping.

     A Pérola, John Steinbeck: Narrativa concisa que lembra por vezes o estilo empregado por hemingway em O Velho e o Mar. Steinbeck, contudo, como narrador, foge por vezes da narrativa seca para dar maior ênfase ao momento emocional do personagem. Este o faz através de comparações e da narrativa das impressões dos personagens sobre os acontecimentos: “Kino agora tinha um futuro”. A descrição do momento emocional é bem presente nessa obra. 


Próximo post: Narrador onisciente em primeira pessoa.

Boa leitura.






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