sexta-feira, 23 de outubro de 2015

O Legado Humano

           No período Paleolítico, dentre as muitas espécies que habitavam o planeta, o ser humano poderia ser apontado como uma aposta improvável para o posto de futura espécie dominante. Afinal, o ser humano não tinha garras dilaceradoras como as de um felino, tampouco a mesma agilidade; não tinha mandíbulas poderosas como as de alguns mamíferos, répteis ou peixes que outrora foram os grandes dominantes da cadeia; nem, ao menos, tinha pelos suficientes para possuir uma proteção razoável contra o frio. Na tentativa de se tornar uma espécie um pouco mais resistente à ação de seus predadores naturais (que eram muitos), o ser humano passou a usar garras, peles e ossos de outros animais.
           Contudo, a natureza preparara o ser humano com algo mais. Não foi cedo que o ser humano primitivo entendeu o presente que a natureza lhe dera. Por muitas vezes este se confundiu tentando imitar outros animais ou simplificar a solução de sua equação biológica.
           Alguns poderiam dizer que este algo mais seria: o raciocínio, a mente, o cérebro, o fogo, os inventos, a observação, a ciência ou congêneres. O que não seria errado, embora todas essas hipóteses apontadas sejam meros subprodutos do que realmente fez a diferença na luta pela sobrevivência dos pobres macacos de pelos ralos: a capacidade de deixar um legado.
           A capacidade de deixar um legado foi determinante na construção da supremacia humana, pois de nada adiantaria um ser humano aprender a usar o fogo, observar padrões físicos, desenvolver técnicas de afiação, costura e etc, se este conhecimento se perdesse com o fim de sua curta e ínfima vida humana (quando comparada ao curso das eras). O ponto em que chegamos não pode ser sequer compreendido em uma simples vida humana. Vivemos em uma época em que temos que escolher no que nos especializar, pois o conhecimento sobra; não é nem de longe possível aprender a totalidade.
           Evidentemente, não é exclusividade humana a capacidade de deixar um legado, mas nenhum outro ser a demonstrou com o mesmo nível de refinamento, pois algumas coisas passam sim de pai para filho, mas a memória é frágil, confusa e pouco confiável, deteriorável nos detalhes, principalmente se usada para absorver aquilo que o ser possuidor não tem interesse em aprender. Portanto, o grande trunfo humano se refere a algo mais avançado, mais refinado, até onde se é possível saber, refere-se a algo sumério ou egípcio.
           Com o advento da escrita, passou a ser possível estabelecer a comunicação entre as gerações. Mortos poderiam falar com vivos, e o bastão poderia ser passado ao próximo para que este o levasse mais adiante. O legado humano pode inclusive estender o tempo da vida humana. Passou a ser possível derivar mais, aprimorar mais e, cada vez mais, se tornou possível armar a próxima geração com uma vantagem quase injusta perante as outras espécies. Chegou-se ao ponto em que um ser humano que tinha passado duas décadas sobre a Terra possuía invenções, construções e conhecimentos equivalentes aos que teria um ser com uma idade dezenas de vezes maior do que a sua. O ser humano passou a conhecer as outras espécies, suas nuances, suas fraqueza, e logo o jogo da sobrevivência virara um brinquedo, uma linha de pesquisa.
          A partir deste momento, o conhecimento humano explodiu e, mesmo hoje, certas tecnologias, expressões e representações de algumas sociedades humanas do passado ainda não puderam ser completamente entendidas. Basta lembrar que recentemente se descobriu que o método usado pelos egípcios para arrastar os pesados blocos que comporiam futuramente as grandes pirâmides e outros monumentos, consistia em simplesmente molhar a areia. Isso estava escrito repetidas vezes em hieroglifos e demonstrado em diagramas. Apenas agora, mais de dois mil anos depois, fomos capazes de entender a mensagem, pois ao longo de todo este tempo não fomos capazes de descobrir tal método por nossas próprias capacidades.
         Tais exemplos se multiplicam ao longo de nossa história, e mesmo o que a ciência descobre em um dia permanece uma incógnita para todos nós, pois não mais conseguimos aprender a totalidade de qualquer área, mesmo das descobertas imediatas e recentes, crescemos demais em um único dia para que isto seja possível. Esta sobra de conhecimento passou a gerar um desinteresse sistêmico, uma saturação, um profundo estado de confusão que vem crescendo ao longo das gerações, que procuram cada vez mais se refugiar em letargias de todos os tipos. Vivemos uma época em que o acesso não é o problema, mas sim o excesso.
         A exaustão e, até mesmo, a fobia que se criou ao sistema de conhecimento se explica, além do excesso de conhecimento, pela contaminação da cadeia.
         Em algum momento, a pureza de nosso dom natural se perdeu. Muita coisa travestida de legado foi inserida na história humana, em suas teorias, em suas percepções. Doenças de gerações, debilidades lógicas, emocionais, sentimentais, espirituais eram passadas adiante. O grande legado humano tornara-se venenoso. O ser humano aprendera a tramar através das eras, os mortos podiam dominar os vivos mesmo após o silêncio decretado pela morte. As vozes impressas de seres cujos ossos há muito haviam se tornado poeira varrida pelo vento podiam atormentar os debutantes na vida, podiam confundi-los, manipulá-los e arruiná-los. Sem tanto esforço, podemos encontrar na mente alguns exemplos de mortos que atrasaram as eras com o eco de suas existências impresso no legado humano. Estes narram o que os vivos devem dizer, e suas vozes mortas ganham vida por cordas vocais incautas, maculadas pela demência rebuscada travestida de sabedoria. As vozes perniciosas circulam por mentes que eles jamais poderiam imaginar que fossem existir, e a sua doença continua se espalhando.
         É em busca dessa pureza perdida que este blog foi criado; na esperança de que cada um que passar por aqui possa se entender melhor, se orientar conforme seu próprio caminho e, a cima de tudo, se inspirar para prosseguir na luta para descobrir e compor o seu próprio legado; pois a evolução do legado é pré requisito para a evolução de uma era. Assim, para que o avanço seja possível, é necessário restabelecer em cada um de nós a capacidade de receber e dar de forma purificada a essa corrente transcendental; o grande e único real patrimônio humano, ao qual cada um de nós deve e, em algum momento, poderá também se tornar credor.        


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